-Então diga-me, de que vale saber tudo sobre a poesia? De que vale saber onde fica a tal sílaba tônica da palavra? - disse o velho e turrão cientificista em tom questionador e pejorativo - As ciências são aplicáveis, usamos a química para produzir tantos remédios, conservar e dar aromas a alimentos etc. A biologia nos ajuda a entender como funcionamos, como somos e dá um grande auxílio na medicina. Medicina essa a qual não preciso sequer citar sua importância. E por fim temos a física, que é tão aplicada no dia-a-dia e sem a qual não teríamos muitas das coisas que tanto utilizamos.
-É, eu não sei de que vale a poesia, não sei mesmo. Não sei qual é a vantagem de saber metrificar um verso e de saber qual é a sílaba tônica. - replicou o jovem literato com ímpar calma - Mas também não sei de que vale estudar fenômenos naturais, não sei de que vale recontar a História, sendo que ela já passou, não entendo pra que conhecer outras línguas.
-Eu disse, de nada valem essas "delicadezas" da poesia. - concluiu o cientista com ar de vitória.
-Mas espere, ainda não concluí, com todo o respeito, também não entendo o porquê de estudar as ciências, como diria Ricardo Reis, "Nada somos que valha", nem nós, nem os estudos literários ou científicos - disse o literato mais entretido com os pássaros e as árvores que os circundavam que com seu interlocutor.- Mas não é que eu tenha algo contra as ciências, tanto as humanas como as exatas, é só que eu não sei de que vale a vida sem o amor. Eu vejo beleza nas letras porque as amo, e o senhor também só vê beleza na Ciência porque a ama, a vida é assim, meramente movida por amor. Acrescento portanto uma ideia à ilustre frase do médico portuense e latinista. Nada somos que valha, ao menos que tenhamos o amor.
E com isso até o homem da razão abriu-se à emoção.
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