sexta-feira, 29 de abril de 2011

A menina e a rotina.

Essa é a história de uma menina que todos os dias fazia tudo igual. Ela acordava, escovava os dentes, saía de casa, ia para a escola e para o curso, dentre outras coisas.
Mas em um dia, tudo mudou, - ou pareceu mudar - ela já havia ido dormir com a sensação de que o dia seguinte seria um dia diferente e que faria com que ele valesse a pena. Foi então que acordou com um senso crítico do tamanho do mundo. Ao levantar-se, perguntou por que tinha de sempre ser naquele horário, por que não haveria de acordar um pouco mais tarde e ter horas a mais de descanso, ou acordar mais cedo para aproveitar melhor o dia. Depois foi ao banheiro, escovou os dentes, dessa vez sem tanta crítica, a higiene bucal é coisa séria e sem muitas falhas na sociedade de hoje. Depois vestiu-se com o uniforme da escola, tentando entender o porquê de ter de vestir-se igual a todos. Era para que fossem etiquetados? Ou não queriam que alguém se destacasse, não queriam uma liderança que chamasse a atenção? Não conseguiu uma resposta clara, apenas vestiu-se como fazia todos os dias.
Desceu as escadas em direção à cozinha, ia tomar o café-da-manhã, e, seguindo a regra do dia, questionou o seu lanche. Por que pão em lugar de cereal? Por que ela tinha algo para comer e pessoas na rua não? O que os diferenciava? Não eram ambos humanos? Por fim engoliu o pão, ainda a indagar.
Foi à escola pelo caminho de sempre, mas curiosa quanto aos outros caminhos. Aonde levariam? Haveria um atalho para a escola? Algum daqueles caminhos a levaria para um outro lugar, um lugar livre daquelas preocupações e, sobretudo, livre daquelas perguntas?
Minutos depois chegou à escola, cumprimentou seus amigos e não amigos e foi para a classe. Por que aula de física? Ela preferia uma aula de algo mais humano, como filosofia ou algo no tipo. Mas não, teria de ver física e depois química, não porque queria, mas porque devia. Encarou as aulas com muito desânimo e com ainda mais reprovação. Foi ao intervalo, mas estava cansada dele às nove e trinta, adoraria um intervalo que começasse mais tarde, e de preferência com uma duração maior, apenas por aquele dia, em outros ele podia até ser extinguido, nesse caso apenas quando a aula estivesse boa e ela quisesse prolongar o assunto. Todavia, as coisas não são do jeito que nós queremos, e ela teve de lidar com o intervalo rotineiro. Depois dele foi mais do mesmo. Até que chegou a hora da saída, aqui não havia muito o que se criticar, apenas o mesmo do intervalo, poderia ser liberada mais cedo algumas vezes e noutras preferia ficar pelo resto do dia na escola. Foi para casa, almoçou, querendo saber porque era isto e não aquilo, como sempre.
Chegou a hora de seu curso de inglês. Nesse dia, como já era rotineiro, não estava disposta a ir com o de sempre, só por hoje ela queria ter aula de outra língua, queria ter aula de francês. Mas não podia, estava presa a um protocolo. Pelo menos routine vale tanto para o inglês quanto para a língua francesa.
A tarde começava a se despedir e dar lugar à noite quando ela chegou em casa. Estava cansada mas não parava. Foi fazer lição, contra sua vontade, queria sim escrever, mas não sobre Getúlio Vargas, queria fazer um ensaio, uma crítica sobre toda sua rotina, mas não o fez.
Jantou com a mesma crítica do café-da-manhã e do almoço. Satisfeita, escovou os dentes e foi dormir, com um gosto de satisfação na boca. Ela não havia reparado em quanto havia mudado naquele rotineiro dia. Amanhã seria um dia diferente, e ela o faria valer.

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